Parece madeira escura. Em algumas peças, a superfície lembra terra compactada; em outras, as camadas da impressão ficam tão evidentes que parecem fazer parte do próprio desenho.
O projeto se chama After the Last Sip e integra o London Design Festival 2026. A exposição acontece até 18 de setembro e reúne trabalhos dos designers taiwaneses Chao-Chun Kung, Ching-Yu Lin e Chen-Yang Chang, com curadoria espacial de Chih-Han Liu.
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Conhecer Design de Interiores Total →A história é interessante justamente porque não termina na imagem curiosa de um “móvel feito de café”.
O café não vira cadeira sozinho, o material não é composto apenas pelo resíduo e chamar qualquer produto reciclado de sustentável sem olhar o processo inteiro seria simplificar demais a questão.
Da xícara para a impressora: o que acontece com a borra?
O processo começa longe da impressora 3D.
A equipe coleta borra de café e folhas de chá já utilizadas em cafés e estabelecimentos de Londres.
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Entrar na comunidade ArqGPT →Depois, o material passa por uma sequência relativamente fácil de entender:
- coleta dos resíduos de café e chá;
- secagem, para retirada de umidade;
- moagem, buscando uma granulometria mais consistente;
- composição do resíduo com PLA para produzir um material imprimível;
- impressão 3D robótica em grande escala.
Antes de chegar às peças finais, os designers testam diferentes proporções e tamanhos de partículas.
Segundo o projeto, essas mudanças interferem em características como cor, textura, translucidez e comportamento estrutural.
Isso ajuda a explicar por que dois objetos desenvolvidos dentro da mesma pesquisa podem parecer materiais completamente diferentes.
A fabricação digital é uma parte essencial dessa história. A A Arquiteta já mostrou como impressão 3D e outras soluções tecnológicas estão mudando o design de interiores, permitindo testar novas geometrias, processos e formas de produção.
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Não: o móvel não é feito de café puro
Esse é o primeiro detalhe que uma manchete pode esconder.
A borra de café ou a folha de chá participa de um compósito. No projeto, os resíduos são combinados com PLA para formar a matéria utilizada na impressão.
Portanto, não estamos falando de secar a borra que saiu da cafeteira e colocá-la diretamente em uma impressora.
Essa diferença importa também quando avaliamos sustentabilidade.
Reaproveitar um resíduo que seria descartado é uma estratégia interessante, mas isso não responde sozinho a todas as perguntas sobre impacto ambiental.
Para uma avaliação mais completa, também seria necessário conhecer, entre outros pontos:
- quanto resíduo existe em cada formulação;
- qual é a origem dos demais componentes;
- quanta energia o processamento e a impressão exigem;
- qual é a vida útil da peça;
- como ela se comporta com calor, umidade e uso contínuo;
- como pode ser reparada;
- e o que acontece quando finalmente chega ao fim da vida útil.
Nas informações públicas consultadas para esta matéria, o projeto detalha a pesquisa de materiais e o processo de fabricação, mas não apresenta dados suficientes para responder completamente a todas essas questões.
Por isso, é mais responsável tratar After the Last Sip como uma investigação de design e materialidade do que transformar o projeto, sem evidências adicionais, em solução universal para resíduos.
Esse cuidado também vale para qualquer projeto apresentado como ecológico. Em arquitetura sustentável aplicada aos projetos, a escolha de materiais faz parte de uma estratégia maior, que envolve desempenho, uso de recursos, conforto e vida útil — não apenas a origem de um ingrediente.
A luminária feita com café muda de aparência quando acende
Uma das peças que melhor mostra o potencial visual do material é ORBIT, de Chao-Chun Kung.
A série utiliza borra de café reciclada combinada com PLA.
As formas arredondadas podem ser reorganizadas em diferentes configurações e alturas. Quando a luminária é acesa, segundo a descrição oficial do projeto, o material de aparência terrosa e pontilhada assume uma superfície quente e translúcida.
Ou seja: aquilo que normalmente enxergaríamos apenas como resíduo passa a participar ativamente da maneira como a luz é percebida.
As marcas da impressão não são escondidas — e isso muda a estética
Em muitos produtos industriais, acabamento significa justamente apagar os sinais de fabricação.
Aqui acontece quase o contrário.
As camadas depositadas pela impressão 3D, pequenas irregularidades, partículas e mudanças de tonalidade permanecem visíveis.
Não são necessariamente imperfeições que precisam desaparecer. Elas passam a fazer parte da linguagem da peça.
Isso produz uma estética interessante porque o objeto conta duas histórias ao mesmo tempo.
De longe, enxergamos uma luminária ou um móvel contemporâneo.
De perto, percebemos as linhas sucessivas da fabricação digital e uma superfície que não tenta imitar um plástico convencional.
Esse raciocínio conversa com outra inovação recente acompanhada pela A Arquiteta: o revestimento Mimmik Tile produzido com auxílio de biomineralização. Nos dois casos, processos incomuns de fabricação não precisam resultar em uma estética de ficção científica.
Undetermined Shore transforma borra de café em uma espécie de paisagem
Em Undetermined Shore, Ching-Yu Lin leva a pesquisa para uma direção mais escultórica.
A instalação luminosa utiliza borra de café reciclada, PLA e iluminação LED.
Duas formas verticais ficam próximas, mas não se encostam. Conforme a pessoa muda de posição, podem parecer conectadas ou separadas.
O conceito parte da costa de Taiwan e da ideia de uma fronteira entre ilha e mar que está continuamente se transformando.
É um bom exemplo de como o projeto tenta evitar que o resíduo seja apenas uma curiosidade técnica.
O material participa também da narrativa do objeto.
Nem tudo é café: folhas de chá produzem outra linguagem
O projeto também utiliza resíduos de chá.
E é aí que fica mais fácil perceber como composição, geometria e iluminação podem produzir resultados visuais muito diferentes.
A família de luminárias Iced Tea, de Chao-Chun Kung, utiliza folhas de chá recicladas e PLA.
As peças exploram a translucidez do material. Quando iluminadas, as colunas deixam a luz atravessar as camadas impressas e ganham uma aparência difusa e quente.
Até o caractere chinês para “chá” virou ponto de partida para o móvel
Em CHA / 茶, a relação com o chá vai além da matéria-prima.
O caractere chinês 茶, que significa chá, serve como ponto de partida para um sistema paramétrico criado por Chao-Chun Kung.
A mesma lógica geométrica pode mudar de proporção e aparecer como banco, mesa, assento alto ou objeto escultórico com quase dois metros de altura.
A cultura do chá, portanto, entra no projeto de duas formas: está presente no resíduo usado para produzir o compósito e na geometria que orienta o desenho.
E a pesquisa já chegou ao mobiliário
O projeto não ficou restrito a luminárias e objetos escultóricos.
Nexus Bloom, de Chen-Yang Chang e Chao-Chun Kung, utiliza folhas de chá recicladas e PLA em uma peça apresentada como mobiliário externo.
O desenho começa em uma superfície circular e forma uma estrutura semelhante a uma rede, com linhas que crescem, se cruzam e se dobram. No centro, uma abertura cria espaço para vegetação e passagem de luz.
Isso amplia a discussão porque o compósito passa a desempenhar uma função que envolve uso humano direto.
Mas é justamente nesse ponto que a cautela precisa aumentar.
Quando um material passa a cumprir função de mobiliário, questões como carregamento, estabilidade, exposição, desgaste, manutenção e envelhecimento tornam-se ainda mais importantes.
Isso significa que teremos móveis de café em casa em breve?
Talvez algumas dessas experiências deem origem a novos produtos e aplicações.
A própria página do Innovus Lab apresenta diferentes obras com preço sob consulta, mostrando que a pesquisa não está restrita a pequenas amostras de laboratório.
Mas seria precipitado concluir que a borra de café está prestes a substituir madeira, plástico, pedra ou outros materiais tradicionais.
Estamos diante de uma pesquisa específica que combina resíduos orgânicos, PLA, projeto paramétrico e fabricação digital.
Transformar isso em produto de grande escala exige responder questões de desempenho, regularidade da matéria-prima, produção, manutenção, logística, custo e fim de vida.
Em arquitetura e design, a distância entre uma experiência de material promissora e uma solução amplamente especificável pode ser grande.
Esse é também um bom motivo para olhar além da palavra “reciclado”. A A Arquiteta reúne outras estratégias em dicas de decoração sustentável, mostrando que reaproveitamento, durabilidade e escolhas de consumo podem trabalhar juntos.

O que vale observar nessa experiência?
| Aspecto | O que o projeto demonstra | O que ainda precisa ser avaliado |
|---|---|---|
| Resíduo | Borra de café e folhas de chá podem participar de um novo compósito | Percentual utilizado em cada formulação |
| Forma | A impressão robótica permite geometrias complexas e grandes dimensões | Viabilidade produtiva em escala comercial |
| Acabamento | Partículas e camadas podem fazer parte da estética | Comportamento com desgaste e limpeza |
| Iluminação | Algumas formulações exploram translucidez | Desempenho de longo prazo |
| Circularidade | O projeto mostra também sobras e material reprocessado | Possibilidades reais de reciclagem ao final da vida útil |
Então por que esse projeto importa?
Porque ele muda a pergunta.
Quando pensamos em borra de café, normalmente enxergamos poucas possibilidades: descarte, compostagem ou algum reaproveitamento doméstico.
O projeto pergunta se esse fluxo de resíduos pode participar de uma cadeia de fabricação completamente diferente.
E não tenta esconder completamente de onde veio a matéria.
As partículas aparecem.
As camadas da impressão aparecem.
As variações aparecem.
O próprio processo passa a fazer parte da aparência.
Essa busca por materiais de menor impacto e novas superfícies também aparece no universo dos revestimentos e materiais sustentáveis para pisos e paredes, onde desempenho e estética precisam ser avaliados em conjunto.
Isso conversa com uma discussão maior do design contemporâneo: em vez de escolher primeiro a forma e depois procurar um material que consiga reproduzi-la, o designer pode investigar o comportamento da própria matéria e permitir que suas características e limitações também participem do desenho.
Mas cuidado com a palavra “sustentável”
Existe uma tentação compreensível de olhar para qualquer material produzido com resíduos e classificá-lo imediatamente como sustentável.
A realidade é mais complexa.
Uma avaliação responsável precisa considerar todo o sistema.
| Pergunta | Por que importa |
|---|---|
| Quanto resíduo existe na peça? | Ajuda a entender quanto material descartado realmente substitui outra matéria-prima. |
| Qual é o restante da composição? | Um compósito precisa ser avaliado como conjunto, e não apenas pelo ingrediente mais chamativo. |
| Quanto tempo dura? | A vida útil influencia diretamente o impacto do produto. |
| Pode ser reparado? | Manutenção e reparabilidade podem prolongar seu período de uso. |
| Pode ser processado novamente? | Reaproveitar um resíduo uma vez não garante circularidade indefinida. |
| Qual é a energia necessária? | Processamento e impressão robótica também entram na avaliação ambiental. |
O próprio After the Last Sip apresenta amostras de materiais, impressões que falharam, seções cortadas e material reprocessado.
Isso é particularmente interessante porque mostra a pesquisa e suas limitações, e não apenas objetos perfeitamente finalizados.
Mas apresentar reprocessamento não equivale, sozinho, a uma análise completa de ciclo de vida.
Não tente colocar a borra da cafeteira na impressora 3D
Esse talvez seja o alerta mais simples — e mais necessário.
O projeto envolve secagem, moagem, controle de partículas, composição do material, experimentação, desenho paramétrico e impressão robótica de grande escala.
Não é uma receita doméstica.
Quem quiser entender melhor como essas ferramentas já estão entrando nos projetos pode conhecer também as soluções tecnológicas aplicadas ao design de interiores.
O lixo do futuro talvez pareça matéria-prima
Depois da última xícara, normalmente enxergamos apenas aquilo que precisa ser descartado.
After the Last Sip propõe olhar alguns passos além.
A borra pode virar partícula.
A partícula pode entrar em um compósito.
O compósito pode ser impresso.
E aquilo que parecia o fim de um processo se transforma no começo de outro objeto.
Isso não resolve sozinho o problema dos resíduos, nem prova que todo móvel produzido dessa maneira terá impacto ambiental menor.
Mas demonstra algo especialmente relevante para a arquitetura e o design:
materiais que hoje tratamos como lixo ainda podem esconder propriedades, texturas e possibilidades que simplesmente não aprendemos a aproveitar.
Fontes e método editorial
Esta matéria foi elaborada a partir da documentação oficial da exposição After the Last Sip, da página do projeto no London Design Festival e do material publicado pelo Innovus Lab.
London Design Festival — After the Last Sip
Innovus Lab — After the Last Sip
Press release oficial — After the Last Sip
As informações sobre composição, designers, processo de fabricação e conceitos das obras foram verificadas nessas fontes. Onde não havia documentação pública suficiente sobre impacto ambiental, percentual exato das formulações, durabilidade ou desempenho de longo prazo, o texto não presume essas informações.
Última verificação editorial: 18 de setembro de 2026.
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