São as chamadas listening rooms, ou salas de escuta.
Em setembro de 2026, o London Design Festival colocou o som no centro de ambientes domésticos no Fritz Hansen Sound Club. Antes disso, a Milan Design Week já havia mostrado diferentes espaços em que caixas acústicas, toca-discos, mobiliário, materiais e iluminação faziam parte do mesmo projeto.
Mas aqui está a parte mais interessante para uma casa brasileira: você não precisa ter uma sala exclusiva, uma coleção de centenas de discos ou equipamentos caríssimos para aproveitar a ideia.
Um canto da sala com um bom assento, uma fonte de música e algumas decisões de acústica e layout já pode mudar completamente a experiência.
Por que o som entrou de vez na conversa sobre interiores?
Quando pensamos em conforto dentro de casa, normalmente lembramos de temperatura, iluminação, sofá, cores e circulação.
O som costuma aparecer apenas quando alguma coisa dá errado: vizinho barulhento, televisão alta, eco ou ruído da rua.
As listening rooms propõem outra pergunta:
e se o som também pudesse participar positivamente do projeto?
No Fritz Hansen Sound Club, que integra a programação do London Design Festival 2026, quatro cenas domésticas foram organizadas em torno de diferentes momentos de escuta — desde um canto de leitura mais individual até uma sala voltada à convivência.
A proposta não trata o aparelho de som como um equipamento escondido depois que a decoração está pronta. Som, luz, poltronas e materiais são pensados juntos.
Isso também apareceu durante a Milan Design Week deste ano, quando diferentes marcas e designers criaram ambientes especificamente dedicados à experiência sonora.
Não significa que toda residência passará a ter uma sala de música. O movimento é mais interessante quando interpretado como uma mudança de prioridade:
o ambiente não precisa ser organizado sempre em torno de uma tela.

Uma sala de escuta não precisa ser uma sala
É justamente aqui que a ideia fica mais útil para apartamentos e casas brasileiras.
Em vez de perguntar “onde vou encontrar um cômodo livre?”, pergunte:
onde eu conseguiria sentar por alguns minutos para ouvir música confortavelmente?
Pode ser:
- uma extremidade da sala de estar;
- o espaço ao lado de uma estante;
- uma poltrona próxima a um aparador;
- um pequeno escritório usado também para relaxar;
- um canto de leitura que passa a cumprir duas funções.
Em ambientes pequenos, inclusive, criar uma segunda atividade dentro da sala pode torná-la mais interessante sem exigir uma divisão física.
O artigo da A Arquiteta sobre como organizar uma sala em dois ambientes ajuda a entender essa lógica de criar zonas diferentes sem necessariamente erguer paredes.
O teste mais simples: para onde sua poltrona está olhando?
Faça um exercício rápido.
Entre na sala e observe a disposição dos assentos.
Todos eles estão direcionados para a televisão?
Isso é muito comum — e faz sentido quando assistir TV é a principal atividade do espaço. Mas também transforma a tela no único centro possível da sala.
Para criar um canto de escuta, experimente formar uma pequena composição lateral.
Uma poltrona pode olhar para uma estante, uma janela, uma obra de arte ou simplesmente ficar levemente inclinada em relação ao restante da sala.
Ao lado dela, um móvel baixo pode apoiar o equipamento, livros ou discos.
De repente, o espaço passa a oferecer duas experiências:
um lugar para assistir e outro para ouvir.
Antes de comprar equipamento, escute o próprio ambiente
Uma sala vazia, com piso duro, paredes lisas e poucas superfícies têxteis tende a apresentar mais reflexões sonoras.
Já materiais absorventes podem contribuir para reduzir parte dessa reverberação.
Em um projeto residencial de estúdio documentado pela ProAcústica, por exemplo, painéis absorvedores e tapetes espessos foram usados para controlar reflexões e modificar o comportamento acústico do espaço.
Isso não significa cobrir a sala inteira de espuma.
Em uma residência comum, vale começar observando aquilo que já faz parte da decoração:
- tapete;
- sofá e poltronas estofados;
- cortinas;
- livros;
- estantes;
- tecidos e outros elementos macios.
Esses elementos não substituem um projeto acústico profissional, mas ajudam a lembrar que acústica e decoração não precisam ser assuntos separados.
O conteúdo da A Arquiteta sobre como deixar a sala mais aconchegante também mostra como tapetes, tecidos e iluminação podem participar da atmosfera do ambiente.

Tratamento acústico não é a mesma coisa que isolamento acústico
Essa diferença evita muita frustração.
Tratamento acústico procura melhorar como o som se comporta dentro do próprio ambiente — por exemplo, reduzindo reverberações excessivas.
Isolamento acústico procura diminuir a transmissão sonora entre ambientes.
Colocar um tapete pode modificar reflexões dentro da sala. Isso não significa impedir que uma música em volume alto atravesse paredes, piso ou teto e incomode o vizinho.
Quando o problema é transmissão de ruído entre unidades, quartos ou pavimentos, entram questões construtivas que podem envolver paredes, lajes, esquadrias, portas, vedações e encontros entre sistemas.
Nesse caso, principalmente em condomínio, vale buscar avaliação profissional em vez de confiar apenas em soluções decorativas.
O toca-discos aparece muito nas fotos — mas não é obrigatório
Boa parte das listening rooms atuais resgata discos de vinil, equipamentos aparentes e móveis de madeira.
Visualmente, funciona muito bem.
Mas a essência da ideia não está no vinil.
É possível criar o mesmo ritual com streaming, arquivos digitais, rádio ou outro sistema de reprodução.
O que muda é a intenção.
Em vez de deixar a música funcionando apenas como fundo enquanto várias outras coisas acontecem, o espaço convida a parar por alguns minutos para escutar.
Por isso, antes de comprar um toca-discos apenas para completar a estética, pense no seu hábito real.
Se você já possui discos, ótimo.
Se não possui, não é o objeto que transforma a sala em um bom espaço de escuta.
Como montar um canto de escuta sem transformar a sala em estúdio
Eu usaria três camadas para organizar essa decisão: posição, superfícies e atmosfera.
1. Posição: escolha primeiro onde você vai sentar
O assento é o começo do projeto.
Poltrona, sofá ou banco precisam permitir que você realmente queira permanecer ali.
Depois, a posição dos equipamentos deve acompanhar as orientações do fabricante e as características do ambiente.
Evite esconder caixas de som em nichos apertados apenas porque visualmente parece mais organizado. Alguns equipamentos precisam de espaço livre ao redor, e cada sistema possui recomendações próprias de instalação.
2. Superfícies: perceba se o ambiente está “duro” demais
Bata palmas no ambiente vazio ou durante um momento silencioso.
Se você percebe uma cauda sonora evidente ou um eco desagradável, observe a quantidade de vidro, pedra, porcelanato e paredes completamente livres.
Talvez o espaço esteja pedindo mais equilíbrio entre superfícies duras e elementos absorventes.
Um tapete adequado ao layout, cortinas quando necessárias e mobiliário estofado podem fazer parte dessa composição.
Quando o objetivo for desempenho acústico preciso, entretanto, o correto é dimensionar soluções específicas.
3. Atmosfera: não esqueça da luz
Uma das coisas mais interessantes nas instalações atuais é a integração entre som e iluminação.
Você não precisa ouvir música no escuro.
Mas uma luminária de piso, um abajur ou uma luz indireta podem criar uma atmosfera diferente daquela usada para limpar, trabalhar ou executar tarefas.
A própria luz ajuda a comunicar que aquele canto possui outro ritmo.
E os vizinhos?
Essa talvez seja a diferença mais importante entre uma instalação de feira e um apartamento real.
A experiência precisa funcionar não apenas para quem está ouvindo, mas para quem divide a casa e para quem vive ao redor.
Caixas maiores não significam automaticamente melhor experiência em qualquer ambiente.
Volume excessivo também não corrige problemas de posicionamento ou acústica.
Se a sala compartilha parede com dormitório, apartamento vizinho ou outra área sensível da residência, esse contexto precisa entrar na escolha e no uso do sistema.
Para reformas mais amplas, o artigo da A Arquiteta sobre itens importantes no projeto arquitetônico da casa inclui o conforto acústico entre os aspectos que merecem planejamento.
O que vale copiar das listening rooms de 2026?
| Ideia | Tradução para uma casa real | O que evitar |
|---|---|---|
| Som como parte do interior | Pensar equipamento, assento, luz e mobiliário juntos | Comprar tudo primeiro e tentar encaixar depois |
| Ambiente sem TV como foco | Criar um canto secundário dentro da própria sala | Achar que é necessário eliminar a televisão |
| Materiais acústicos | Observar tapetes, estofados e superfícies antes de intervenções maiores | Confundir decoração com isolamento acústico |
| Vinil e equipamentos aparentes | Expor aquilo que realmente faz parte do hábito do morador | Comprar toca-discos apenas para compor uma estética |
| Luz mais intimista | Usar iluminação de apoio para criar diferentes momentos | Deixar o canto pouco funcional apenas para parecer sofisticado |
A melhor listening room talvez nem pareça uma listening room
Esse é o ponto que vale trazer das semanas de design de 2026.
Não é preciso transformar a sala em um clube de áudio, cobrir paredes com painéis ou fazer da coleção de discos a principal decoração da casa.
A ideia pode ser muito mais cotidiana.
Uma poltrona confortável.
Um equipamento que você realmente usa.
Uma iluminação agradável.
Um ambiente que não reverbera de maneira incômoda.
E alguns minutos em que a televisão não precisa ser o centro das atenções.
Talvez o luxo mais interessante dessa tendência não seja possuir um sistema de som maior. Seja criar dentro da casa um lugar onde vale a pena parar para ouvir.
Fontes e método editorial
Esta matéria foi produzida a partir da programação oficial do London Design Festival 2026, da cobertura especializada sobre som e interiores na Milan Design Week 2026 e de referências brasileiras de acústica arquitetônica.
A adaptação para salas e apartamentos brasileiros é uma análise editorial da A Arquiteta e não significa que soluções de exposição possam ser reproduzidas automaticamente em residências. Necessidades de isolamento ou condicionamento acústico devem ser avaliadas de acordo com cada ambiente.
Última verificação editorial: 17 de setembro de 2026.
